Pais e Professores: precisamos falar sobre o jogo Baleia Azul

Pais e Professores: precisamos falar sobre o jogo Baleia Azul

O Jogo Baleia Azul está tirando o sono de muitos pais e educadores no Brasil. Este artigo tem como premissa alertar e orientar pais e professores sobre o Jogo Baleia Azul.

A cada 44 minutos, uma pessoa coloca fim à própria vida no Brasil. Fato que coloca o país em oitavo no ranking de nações com maior número absoluto de suicídios no mundo.

Dessa forma, não há como falar que jovens que se suicidam estão com falta de trabalho, com mente ociosa. NÃO. Há adolescentes sofrendo, com transtornos emocionais e mentais. E precisando de nossa ajuda. A primeira coisa a considerar é que esse jogo leva à morte. A ameaça, portanto, é real.

Primeiramente, é necessário explicar como o jogo apareceu. De origem russa, o Baleia Azul (Blue Whale) apareceu nas redes sociais no ano de 2015 e há investigações de cerca de 130 suicídios relacionados ao jogo mortal desde então, na Rússia. Em outros países, como o Brasil, o jogo alerta para a realidade de nossos adolescentes e jovens deprimidos que tem o jogo como um gatilho em suas 49 tarefas que o fazem se sentir cada dia mais desesperançados e esperando um motivo final para colocarem fim à própria vida. O jogo lista uma série de desafios aos participantes, que incluem automutilação e, como última tarefa, o suicídio.

Uma explicação do nome do jogo “Baleia Azul” é a inspiração nessa espécie de animal, o maior que já existiu, que, devido a matança em massa, hoje se encontra em perigo de extinção.

O curador, que é a pessoa por trás da tela que comanda o desafio, convida o jovem a jogar. Se este aceitar, começa a receber pequenas missões todas as madrugadas. Essas mensagens chegam às 4h20, que, segundo especialistas, é o horário em que mais pessoas cometem suicídio. O jogo dura 50 dias e, depois de seguir todas as instruções e publicar nas redes sociais uma espécie de prova de que completou os desafios, vem a missão final: suicidar-se. Geralmente, o curador é um adulto terrivelmente manipulador, pois consegue iludir os adolescentes e jovens a tal ponto, que os que jogam acreditam que estão sendo observados e que, se não cumprirem o jogo até o final, haverá consequências para suas famílias.

Conforme os adolescentes jogam, as provas podem ser enviadas diretamente para o curador ou postadas na web em forma de mensagens subliminares. Foi o que fez a russa Yulia Konstantinova, de 15 anos, que postou pistas de que estava participando do Blue Whale. As pessoas, infelizmente, só se deram conta do perigo das mensagens após o suicídio da jovem.

A estudante russa Yulia Konstantinova, de 15 anos, postou esta foto de uma baleia azul em seu Instagram pouco antes de saltar para sua morte

É incorreto dizer que todo jovem é vulnerável a jogos como o Baleia Azul. Quem topa o jogo, em geral, já vive um grande sofrimento emocional, mas o fator de buscar um grupo de pertencimento também é importante. “Eles entram e querem se desafiar, provar aos outros e a si mesmos que são capazes de viver o desafio. Mas nem sempre a busca é pela morte. Alguns, no fundo, têm esperança de sobreviver. É um pedido de ajuda, que alguém os enxergue”, resume a psicóloga clínica Rosana Da Rós, de Curitiba.

Quais os desafios do jogo baleia azul?

  1. Com uma faca, escrever a sigla “F57” na palma da mão e em seguida enviar uma foto para o curador.
  2. Assistir filmes de terror e psicodélicos às 4:20 da manhã, mas não pode ser qualquer filme, o curador te indicará, lembrando que ele fará perguntas sobre as cenas, pois ele quer saber se você realmente assistiu.
  3. Cortar seu braço com uma faca, “3 cortes grandes” mas é preciso ser sobre as veias e não precisa ser muito profundo, envie a foto para o curador, e seguira para o próximo nível.
  4. Desenhar uma baleia azul e enviar a foto para o curador.
  5. Se você está pronto para se tornar uma baleia escreva “SIM” em sua perna. Se não, corte-se muitas vezes “Castigue-se”.
  6. Tarefa secreta, o curador sempre muda o sexto desafio, baseado no perfil do jogador.
  7. Em sua rede social, escreva “#i_am_whale” no seu status do VKontakte (Rede Social Russa) ou no Facebook. O texto quer dizer “Eu sou uma Baleia”.
  8. Ele te dará uma missão baseada no seu maior medo, ele quer fazer você superar esse medo.
  9. Acordar as 4:20 da manhã e subir em um telhado, quanto mais alto melhor.
  10. Desenhar uma foto de uma baleia azul na mão com uma navalha e enviar a foto para o curador.
  11. Assistir filmes de terror e psicodélicos, todas as tardes.
  12. Ouça as musicas que os “curadores” te enviarem.
  13. Corte seu lábio.
  14. Fure suas mãos com um agulhas.
  15. Faça algo doloroso, “machuque-se”, fique doente.
  16. Procurar o telhado mais alto, e ficar na borda por 22 minutos.
  17. Subir em uma ponte e ficar na borda por 22 minutos.
  18. Faça uma inimizade.
  19. Próximo passo o curador irá verificar se você é de confiança.
  20. Encontre outra baleia azul, “outro participante”, o curador te indicará.
  21. Se pendurar mais uma vez em um telhado alto, mas desta vez precisa fazer algo radical.
  22. Missão secreta, baseada no perfil do jogador, cada um recebe uma missão diferente.
  23. Reunião com uma baleia azul que o curador indicará.
  24. O curador indicará a data da sua morte, e você aceitará.
  25. Acordar as 4:20 e ir a uma estrada de ferro.
  26. Não falar com ninguém o dia todo.
  27. Fazer um voto de que você é realmente uma Baleia Azul.
  28. Todos os dias, você deve acordar às 4:20 da manhã, assistir a vídeos de terror, ouvir música que “eles” lhe enviam, fazer 1 corte em seu corpo por dia, falar “com uma baleia”. Durante o intervalo dos desafios entre 30 e 49.
  29. A partir deste ponto o curador fará você repetir todas as missões que foram realizadas até aqui, e na missão 50, será tirar a própria vida.

O que os pais podem fazer?

A Atenção dos pais é importante, mas tratamento é essencial. Os pais precisam ficar atentos ao comportamento dos filhos em relação ao jogo da Baleia Azul. No entanto, é importante estar ciente de que o envolvimento no jogo pode ser um indício de que o jovem está sofrendo de outros problemas psicológicos, como uma depressão. “A depressão é uma doença e é preciso buscar ajuda de um especialista que possa orientar e trabalhar com o adolescente”, orienta a psicóloga Gabriela Malzyner.

No entanto, a psicóloga Karen Scavacini, especialista em suicídio, alerta que adolescentes saudáveis também podem ser atraídos pelo jogo por curiosidade ou pela sedução do proibido e acabar se colocado em perigo. Por isso, Por isso, as profissionais ressaltam que é importante ficar atento aos sinais de que os filhos possam estar entrando na brincadeira ou estejam precisando de ajuda. Alguns deles são:

  • Isolamento
  • Agressividade
  • Mudança de comportamento
  • Não deixar os pais chegarem perto de seu celular ou computador
  • Usar manga comprida em dias de calor
  • Queda no rendimento escolar
  • Mudanças no padrão de sono
  • Mudanças de apetite
  • Cortes pelo corpo

Mesmo se não identificarem os sinais de que o filho esteja participando do jogo, é importante que os pais abram um canal de diálogo sobre o assunto. Karen recomenda que os pais falem do jogo e perguntem se os adolescentes conhecem e se já tiveram algum contato. Além disso, a profissional orienta a regular e acompanhar as atividades que os adolescentes realizam na internet. Todo cuidado é pouco.

Observe que o jogo dura 50 dias. São quase dois meses em que os filhos darão sinais de que algo está errado. Se o adolescente aparecer com cortes (automutilação) já é um sinal de que algo não está bem.

Como abordar o Jogo Baleia Azul na Escola

As tragédias que temos visto na mídia são importantes, por que nos lembram de quantos jovens já estão em depressão, em desespero, distantes dos pais, e distantes também de nós, educadores. Analisando os casos, sabemos que o Baleia Azul funciona como uma isca para jovens que já têm pensamentos suicidas ou depressivos. Jovens que podem estar com problemas muito sérios e passando desapercebidos em nossas salas de aula.

 Contar com a escola em momentos de crise é estratégico, principalmente por causa de rotinas familiares que não permitem encontros e diálogos de qualidade. É na escola que os alunos passam grande parte do tempo e onde conseguem disfarçar menos os sintomas. Naturalmente impulsivo, o adolescente não fala, mas tem atitudes pouco pensadas. É no acompanhamento diário que o comportamento suicida se mostra. E os primeiros sinais são sutis.

“É um mito dizer que quem pensa em suicídio não dá alertas. Cerca de 90% das pessoas avisam isso de alguma maneira. O adolescente tende a falar menos sobre o sofrimento do que o adulto, mas pode dar sinais, como a queda no rendimento escolar, afastamento das atividades sociais, descuido com a aparência e abandono de projetos”, enumera o psiquiatra Marcelo Daudt Von Der Heyde, professor da PUCPR, preceptor da residência médica em Psiquiatria do HC/UFPR e vice-presidente da Capital da Associação Paranaense de Psiquiatria.

Nesse momento, um olhar empático da parte do professor e da escola pode evitar escolhas ruins e até salvar vidas.

1) Identifique alunos que precisem de ajuda

Segundo Telma Vinha, alunos mais frágeis, que enfrentam dificuldades, têm tendência a aderir a desafios como os oferecidos pelo jogo Baleia Azul. As crianças são envolvidas por uma necessidade de se sentir valorizadas, pertencentes a um grupo, de fazer algo desafiador e de experimentar sensações fortes.

Esses estudantes podem estar passando por situações difíceis. Por isso, é importante que a escola passe a observar de perto mudanças de comportamento. Jovens em sofrimento tendem a ter alterações no desempenho escolar, menos apetite (e, portanto, podem perder peso), se tornar mais tímidos e ter episódios repentinos de choro. “Também é comum que eles procurem um professor de quem eles gostem apenas para estar perto mesmo. Nesses momento, é comum que elas façam perguntas ou puxem assuntos que parecem não fazer muito sentido para o contexto”, explica Telma.

2) Crie canais de ajuda

Durante rodas de conversa, vale pedir que os alunos sugiram quais canais eles acreditam que podem ser importantes para que colegas procurem por ajuda dentro da instituição escolar. Vale discutir a diferença entre “delação” e “denúncia” com os jovens. É importante que os alunos criem confiança nos colegas para que se abram, mas que saibam que, em situações mais extremas – como em casos que podem acabar em suicídio –, acionar um adulto é fundamental. “Não se trata de ser dedo-duro, mas de pensar como podemos ajudar uns aos outros”, diz Telma.

3) Prepare a equipe para atender os estudantes

“Escutar é diferente de ouvir”, enfatiza Telma. A escuta precisa ser empática e considerar os sentimentos dos alunos. É comum que, ao encarar as reclamações dos estudantes, os adultos as diminuam ou menosprezem. Isso não pode acontecer. “Ela deve ser na direção do que o aluno sente e não se opor isso”, recomenda a pesquisadora.

4) Instrua as famílias
Mais do que apenas acionar a família quando for identificado que um aluno está passando por um momento difícil ou aderiu ao jogo Baleia Azul, vale fornecer informações para os responsáveis sobre o tema. Listar as possíveis mudanças de comportamento é uma boa opção. Também é interessante reforçar que a escuta deve dar suporte ao jovem e não retaliar suas ações e sentimentos. Em alguns casos, vale destacar que ajuda especializada pode ser encontrada em postos de saúde e Centros de Atenção Psicossocial (Caps).

5) Discuta abertamente o jogo em sala de aula
Se a escola identificar que algum aluno está participando do jogo ou que ele entrou na conversa dos estudantes, é importante discutir abertamente sobre o assunto. Telma Vinha, da Unicamp, sugere que, em rodas de conversa, o orientador educacional (caso haja essa figura na escola) ou o próprio professor faça perguntas como:

  • O que sabemos sobre o jogo?
  • O quanto disso será que é verdade?
  • Por que os “curadores” têm interesse em manipular os participantes?
  • Por que as pessoas participam do jogo?

Compreendendo melhor essas questões, os estudantes podem repensar a vontade de participar ou não dele. Durante a conversa, procure não apresentar julgamentos. “Apenas chegar e dizer: ‘isso é errado‘, ‘não façam isso‘ afasta a possibilidade de diálogo com os estudantes”, afirma a pesquisadora.

Atitudes dos adolescentes que podem estar relacionadas com o jogo:

1. Mutilações na palma da mão
2. Ele assiste a filmes de terror/psicodélicos com frequência
3. Mutilações nos braços – cortes grandes com desenhos de baleia ou qualquer outro animal
4. Desenhos de baleia
5. Posts em redes sociais com os dizeres “#i_am_whale” (“Eu sou uma Baleia”).
6. Sair de casa em horários estranhos – madrugada, principalmente.
7. Cortes nos lábios
8. Furos nas mãos com agulhas
9. Arranjar brigas
10. Evitar conversar durante muitas horas

PARA PAIS E EDUCADORES:

1. Fique atento à mudança de comportamento

Uma mudança brusca de comportamento pode ser sinal de que a criança ou o adolescente esteja sofrendo com algo que não saiba lidar, segundo Elizabeth dos Reis Sanada, doutora em psicologia escolar e docente no Instituto Singularidades.

“Isolamento, mudança no apetite, o fato de o adolescente passar muito tempo fechado no quarto ou usar roupas para se esquivar de mostrar o corpo são pistas de que sofre algo que não consegue falar”, diz.

2. Compartilhe projetos de vida

Para entender se a criança ou adolescente está com problemas é fundamental que os pais se interessem por sua rotina. Elizabeth reforça que este deve ser um desejo genuíno, e não momentâneo por conta da repercussão do “Jogo da Baleia”.

“Os pais devem conhecer a rotina dos filhos, entender o que fazem, conhecer os amigos”, afirma a Elizabeth. Ela lembra que muitos adolescentes “falam” abertamente sobre a falta de motivação de viver nas redes sociais. Aos pais cabe incentivar que os filhos tenham projetos para o futuro, tracem metas como uma viagem, por exemplo, e até algo mais simples, como definir a programação do fim de semana.

3. Abra espaço para diálogo

Filhos devem se sentir acolhidos no âmbito familiar, por isso, Elizabeth reforça que é necessário que os pais revertam suas expectativas em relação a eles. “É preciso que o adolescente se sinta à vontade para falar de suas frustações e se sinta apoiado. Se ele tiver um espaço para dividir suas angústias e for escutado, tem um fator de proteção”, afirma Elizabeth.

Angela Bley, psicóloga coordenadora do instituto de psicologia do Hospital Pequeno Príncipe, diz que o adolescente com autoestima baixa, sem vínculo familiar fortalecido é mais vulnerável a cair neste tipo de armadilha. “O que tem diálogo em casa, não é criticado o tempo todo, tem autoestima melhor, tem risco menor. Deixe que ele fale sobre o jogo, o que sente, é um momento de diálogo entre a família.”

Angela reforça que muitas vezes o adolescente não tem capacidade de discernir sobre todo o conteúdo ao qual é exposto. “Por isso é importante o diálogo franco. Não pode fingir que esse tipo de coisa não existe porque ele sabe que existe.”

4. Adolescentes devem buscar aliados

O adolescente precisa buscar as pessoas em que confia para compartilhar seus anseios, seja no ambiente escolar ou familiar, segundo as especialistas. “Que ele não ceda às ameaças de quem já está em contato com o jogo e entenda que quem está a frente deles são manipuladores”, diz Elizabeth.

5. Escolas podem criar iniciativas pela vida

Assim como a família, as escolas podem ajudar a identificar situações de risco entre os alunos. “Não é qualquer criança que vai responder ao chamado de um jogo como esse, são os que têm situações de vulnerabilidade. A escola ajuda a construir laços e tem papel fundamental de perceber como os alunos se desenvolvem”, afirma Elizabeth.

Alguns colégios, já cientes da viralização do jogo, começaram a pensar em alternativas para aumentar a conscientização sobre a importância de cuidade da vida. No Colégio Fecap, que fica na Região Central de São Paulo, essa ideia virou projeto escolar: a turma de alunos do ensino médio técnico de programação de jogos digitais começou a criar uma espécie de “contra-jogo” da Baleia Azul.

“O jogo ainda está sendo produzido pelos alunos. Eles estão se reunindo e debatendo a questão. Serão 15 desafios de como desfrutar melhor da vida e celebrá-la”, conta o professor Marcelo Krokoscz, diretor do colégio.

Durante o curso, os estudantes aprender a aplicar linguagens de programação para criar jogos para computadores, videogame, internet e celulares, trabalhando desde a formação de personagens, roteiros e cenários até a programação do jogo em si. Segundo Krokoscz, a ideia é que o jogo, ainda sem prazo de lançamento, esteja disponível on-line para o público em geral.

Ele afirma que o objetivo é a ajudar os jovens a verem o lado bom da vida. “Impacta mais fortemente nossos alunos a partir do momento que eles mesmos criam um jogo a favor da vida.”

Possíveis vítimas do jogo até agora

A polícia investiga casos no Rio de Janeiro, Paraíba, Pernambuco, Rio de Janeiro, Mato Grosso e também no Paraná.

Foto: Maria de Fátima Oliveira, 16 anos, encontrada morta em represa do MT supostamente após participar de jogo da Baleia Azul (//Reprodução)

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